Artigo do Mês
Ergonomia no ambiente doméstico é possível?
Por Franciele Maes lopes
O ano de 2020 iniciou de forma atípica, em virtude do SARS-Cov-2 (Covid-19). Diante da nova realidade, a sociedade precisou reinventar sua rotina de modo a dar continuidade às suas ocupações. Para muitos, o estudo e o trabalho passaram para a ambiência doméstica, os chamados ensino remoto e homeoffice. E neste ponto duas grandes questões se abriram: Como adequar o ambiente da casa para trabalhar e participar de reuniões? Como adequar o ambiente e a rotina, para dar suporte aos filhos que estão em casa? Para o trabalhador professor temos questões adicionais: Como criar métodos e estratégias para um ensino mediado pelo celular ou computador? Como possibilitar aos alunos o acesso à aprendizagem sendo que a inclusão digital não é uma realidade universal?
Em suma, a alteração no cotidiano das diferentes sociedades impôs desafios educacionais que resultaram na promoção de aulas remotas nos mais variados níveis de ensino, o que implicou, ao professor, na necessidade de, rapidamente, buscar por novas estratégias de ensino-aprendizagem; remodelar as aulas e aprender a lidar com as tecnologias de mídias para interação com os aluno (SCHIMDT, LOPES, PEREIRA, 2020). Somado a isto, houve a necessidade de adaptação e reorganização do docente, tanto na âmbito das rotinas quanto do próprio ambiente de trabalho, lembrando que faz parte da ocupação de professor a interação direta com os alunos, por meio da conversação, pausas e dinâmicas que geram variabilidade na demanda atencional. Como desenhar aulas práticas e trabalhos em grupo? Como incluir alunos com necessidades educacionais especiais?
Conforme comentado por Krause e Lopes (2021) “infelizmente a vida real não é a ergonomia que encontramos nos livros”. É notório que, nestes tempos pandêmicos, o docente não está no seu ambiente de trabalho tradicional e muitas vezes não possui os materiais apropriados e necessários para um ensino remoto (quadro, canetão, luz, isolamento acústico, computador, câmera, internet de qualidade). Além disso, existe a questão tempo - dominar as ferramentas, recriar as aulas, responder aos alunos - que nem sempre é permitido ao professor, de maneira adequada.
Em resumo, esta mudança radical na forma e no modo de ensinar gerou desgastes adicionais que impactam na participação ocupacional e podem refletir na saúde e bem-estar do professor. “O meu cansaço visual, cognitivo e emocional, reflete nas minhas posturas físicas e atitudes diante das situações em que vivencio [...] Precisamos ficar atentos aos sinais que o nosso corpo nos dá, buscar amenizar os efeitos que este ambiente desapropriado de trabalho resulta. Devemos observar que se o corpo não consegue mais ficar em uma postura harmônica, é sinal de que ele está cansado” (KRAUSE, 2021).
O profissional deve readaptar as suas rotinas, para realizar todas as suas ocupações mas dentro de seus lares, é importante ter horários para as obrigações e para o lazer, manter seus afazeres em dia para o acúmulo do mesmo não gerar estresse, realizar pequenas pausas no decorrer das atividades, após uma hora e meia ou duas horas, ou conforme ver necessidade dependendo da atividade que está sendo desempenhada, realizar alongamentos, utilizar da música ou outros meios que trazem conforto e calma, como uso de essências e chás, para se restaurar durante as pausas. É importante que o docente evite focar somente em assistir jornais e acompanhar as últimas notícias da internet, devemos nos manter informados, mas tudo que é em excesso não é benéfico. Nos momentos de lazer busque realizar um hobby, cuidar das plantas, ver filmes que relaxem, ler livros que tragam prazer, não somente os de estudos, conversar com a família, realizar jogos sadios, praticar atividades prazerosas como, dança, escrever, pinturas, canto... Se possível realize reformas em determinados cômodos da casa, adeque o ambiente da melhor forma possível, se adapte ao momento que estamos vivendo de uma forma prazerosa, deixe sua casa harmoniosa para que sinta prazer de estar ali, deixe seu ambiente de estudo ou trabalho, organizado e bem iluminado, são mudanças simples ao nosso ver que resultam em um bem estar necessário em nosso dia a dia. Não se esqueça que cuidar do ambiente físico é essencial, mas ergonomia é a junção de ambos, saúde física e mental, nossa saúde mental também importa, e estas caminham juntas na garantia de nosso bem estar. Evite se comparar com outros profissionais docentes, sinta-se à vontade para lecionar, converse com a turma para juntos buscarem melhorias no ensino e aprendizado, de continuidade aos seus planejamentos, sempre que possível, mesmo de forma remota, o professor antes de qualquer coisa deve se sentir à vontade, bem consigo mesmo, pois isso influencia em seu ensino, cada pessoa é única, cada docente possui uma didática ao lecionar, cada docente possui sua essência, e é ela quem o diferencia dos demais. Conversem, não podemos viver somente de forma robotizada, as pessoas vivem em uma sociedade justamente por isso, pois precisamos nos comunicar. Não se cobre pelo momento que estamos vivenciando, estamos todos aprendendo juntos. Fevereiro é o mês das voltas às aulas, mês que inicia as adaptações dentro de um ambiente escolar para que o processo de ensino/aprendizagem seja o mais facilitador possível durante o ano letivo. Sendo assim, o que o Terapeuta Ocupacional pode contribuir nesse processo?!
REFERÊNCIAS
AMERICAN OCCUPATIONAL THERAPY ASSOCIATION (Estados Unidos). Estrutura da prática da Terapia Ocupacional: domínio & processo. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 3, p.01-49, 01 out. 2014.
Conheça o Autor
Bruna M Surmasz, é Terapeuta Ocupacional formada pela Faculdade Guilherme Guimbala (2019), possui pós graduação em nível de Especialização em Transtorno do Espectro Autista e está em fase de conclusão em pós graduação em Desenvolvimento Infantil e Intervenção Precoce. Atualmente, atua na clínica Integração Sensorial & Espaço Integrado, uma referência na Terapia de Integração Sensorial em Joinville (SC).
Bruna é uma inspiração de engajamento e dedica-se também à defesa das causas da terapia ocupacional, sendo membra do CREFITO Jovem (CREFITO 10) e Diretora secretária na ABRATO-SC. Contato: [email protected] / (47) 999194595
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Contribuição da Terapia Ocupacional para o processo de inclusão no ambiente escolar
Por Bruna M Surmasz
Fevereiro é o mês das voltas às aulas, mês que inicia as adaptações dentro de um ambiente escolar para que o processo de ensino/aprendizagem seja o mais facilitador possível durante o ano letivo. Sendo assim, o que o Terapeuta Ocupacional pode contribuir nesse processo?!
Para a American Occupational Therapy Association (2014, p. 1), a Terapia Ocupacional “é definida como o uso terapêutico de atividades diárias (ocupações) em indivíduos ou grupos” e tem assim “o propósito de melhorar ou possibilitar a participação em papéis, hábitos e rotinas em diversos ambientes como casa, escola, local de trabalho, comunidade e outros lugares”. Este profissional atua no contexto escolar visando o desempenho do estudante, identificando os problemas que estejam afetando a capacidade do aluno em aprender e participar de forma completa em suas atividades escolares, analisando os componentes de habilidades do aluno, demandas de atividade, o espaço físico em que está inserido, o mobiliário e a sua rotina; de modo que o terapeuta ocupacional tanto prestar consultoria a equipe pedagógica, quanto orientar pais e a comunidade escolar (MUNGUBA apud SANTOS; LA LIBRA, 2016).
Além disso, o terapeuta ocupacional atua na inclusão de crianças com necessidades específicas, facilitando o processo de ensino aprendizagem, por meio de ações de capacitação e mediação no cotidiano escolar (MUNGUBA, 2007; OLIVEIRA, 2008), bem como orientação focada na relação igualitária com os outros profissionais e pais, facilitando o processo educacional. Centrado no objetivo maior de construir soluções para o sucesso do aprendizado de cada aluno, pode-se realizar consultoria colaborativa para as práticas de inclusão; construindo adaptações de utensílios e mobiliário -plano inclinado, lápis e canetas, tesouras, cadernos, cadeiras, carteiras -; verificando a necessidade de reposicionamento; elaborando tecnologia de suporte como as órteses e propondo atividades adequadas de acordo com cada faixa etária e nível de desenvolvimento (DUTRA; PELOSI; TOYODA apud TREVISAN; DELLA BARBA, 2010). Também poderá propiciar para o aluno, nas ocupações escolares, a participação em atividades que sejam de seu interesse, promovendo o desenvolvimento de suas competências, da sua aprendizagem e autonomia, utilizando-se da mesma para o âmbito da sua vida (PAPE, 2004; HINOJOSA, 1997).
A proposta do terapeuta ocupacional dentro das escolas é centrada no aluno. A partir disso, realiza-se avaliação do ambiente; identificação de necessidades, expectativas e potenciais do aluno, análise do seu processo sensorial e nível de participação social nas suas atividades da vida diária, do brincar e do lazer; considerando as barreiras arquitetônicas e recursos de apoio. Após a avaliação, propõem-se o plano de ação, podendo ser através de um Programa Educativo Individual (PEI), Plano Individual de Transição (PIT) e/ou apoio a organização dos ambientes de aprendizagem.
No âmbito da intervenção, o aluno passa ser ativo em seu processo terapêutico, de modo que sua participação é favorecida, mediante as adequações do contexto, por exemplo, sala de aula, unidades especializadas, recreio, cantina e biblioteca; e resultado da consultoria prestada aos profissionais envolvidos e aos pais. Portanto, são estratégias interventivas que favorecem a equidade e direitos das crianças e jovens, para um sucesso educativo:(DIREÇÃO DE SERVIÇOS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL E DE APOIOS SOCIOEDUCATIVOS, 2015):
- Compreensão do potencial do aluno, sua aprendizagem e diversidade de estratégias para sua participação;
- Intervenções que focalizam os requisitos da atividade em contraponto às funções e estruturas do seu corpo, processamento sensorial e as competências de desempenho, sendo elas motoras, práxicas, sensório perceptivas, cognitivas e sociais de comunicação;
- Apoio aos atores escolares por meio de consultoria, apoio de grupo e/ou apoio individual, sendo que em cada uma deve ser pensado quando, como e onde ela será utilizada.
Fora da escola, mas também facilitando no processo escolar, as crianças com dificuldades podem se beneficiar da terapia de Integração Sensorial de Ayres (IS) que é definida como uma ação de organizar as sensações, por meio de informações recebidas sensorialmente, a partir de condições físicas do corpo através do meio que o rodeia (AYRES, 2005). A teoria da Integração Sensorial, proposta por Jean Ayres, defende que as funções sensoriais impactam na aprendizagem motora nas atividades acadêmicas, atenção e comportamento, além disso, os sistemas sensoriais - tátil, vestibular, proprioceptivo e visual - favorecem o desempenho escolar com significativas contribuições para o desenvolvimento da leitura e escrita. (BUNDY; LANE; MURRAY, 2002). Dentre os objetivos desta teoria, incluiu-se assegurar ao aluno a organização das suas funções executivas, um conjunto de habilidades de inibição, planejamento, flexibilidade mental, fluência verbal e memória; que nos permite planejar as ações necessárias para a execução de comportamentos, resolução de problemas, tomada de decisões e objetivos a serem realizados. (CZERMAINSKI; BOSA; SALLES, 2013). A Terapia Ocupacional se utiliza da terapia de Integração Sensorial, realizando avaliações de funções sensoriais no desempenho da atividade e na participação funcional - nos vários ambientes nos quais o aluno está inserido -, com o intuito de possibilitar experiências para o melhor desenvolvimento nas atividades diárias e nas suas ocupações, favorecendo no seu desempenho escolar. (BLANCHE, 2002 apud ROLEY; CLARK; BISSELL, 2009).
Outro fator relevante para o aprendizado é o brincar, pois ele envolve componentes importantes para o desenvolvimento da criança e, de uma forma lúdica, desenvolve capacidades para sua vida que facilitam a inserção da pessoa nos diversos ambientes. Através do brincar, a criança vivencia papéis sociais e ocupacionais; explora o mundo; adquire noção de localização no tempo e espaço; desenvolve suas habilidades perceptivas, intelectuais, cognitivas e de linguagem e, desenvolve também, a coordenação motora (grossa e fina) e o controle postural (TEIXEIRA et al., 2003). Diante disso, a intervenção terapêutica ocupacional busca agregar estes conhecimentos, juntamente com aqueles da Integração Sensorial.
Em vista dos argumentos apresentados, percebe-se a Terapia Ocupacional facilita no processo de inclusão, porque ela pensa no indivíduo como um ser único, no singular, com o objetivo sempre de favorecer sua autonomia e independência dentro do seu ambiente escolar e beneficia no seu processo de aprendizagem, avaliando, planejando, orientando e adaptando a escola para atender a necessidade de cada aluno.
REFERÊNCIAS
AMERICAN OCCUPATIONAL THERAPY ASSOCIATION (Estados Unidos). Estrutura da prática da Terapia Ocupacional: domínio & processo. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 3, p.01-49, 01 out. 2014.
AYRES, Jean A.. Sensory Integration and the Child. Usa: Abniversary Edition, 2005.
BUNDY, Anita C.; LANE, Shelly J.; MURRAY, Elizabeth A. (Org.). Sensory Integration: Theory and Practice. 2. ed. Estados Unidos: F.a. Davis Company Philadelphia, 2002. 496 p.
CZERMAINSKI, Fernanda Rasch; BOSA, Cleonice Alves; SALLES, Jerusa Fumagalli de. Funções Executivas em Crianças e Adolescentes com Transtorno do Espectro do Autismo: Uma Revisão. Universidade Federal do Rio Grande do Su: l, Porto Alegre, v. 44, p.518-525, 2013.
DIREÇÃO DE SERVIÇOS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL E DE APOIOS SOCIOEDUCATIVOS (Ed.). Necessidades Especiais de Educação: O Terapeuta ocupacional em Contexto Escolar. Editora Cercica, Estoril, p.1-8, 2015.
HINOJOSA, J; KRAMER, P. Fundamental Concepts of occupational therapy: Occupation, purposeful activity and function. American Journal of Occupational Therapy, 864-866, 1997.
MUNGUBA, M.C. Inclusão Escolar. In: CAVALCANTI, A; GALVÃO, C. (Org). Terapia Ocupacional: fundamentação & prática. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007, p. 519-525
OLIVEIRA, C; CASTANHARO, R, C, T. O Terapeuta Ocupacional como facilitador do processo de educação de crianças como dificuldades de aprendizagem. Cadernos de Terapia Ocupacional da UFSCar, v. 16, n. 2, p. 91-99, 2008.
PAPE, L., RYBA, K; CASE-SMITH, J. Pratical Considerations for School-based Occupational Therapists. Montgomery Lane: AOTA Press. 2004. PARHAM, L. Diane; FAZIO, Linda S.. A recreação da Terapia Ocupacional Pediátrica. São Paulo: Livraria Editora Santos, 2002. 267 p.
SANTOS, Andréa Rizzo dos; LALIBRA, Sarah da. Terapia Ocupacional e consultoria colaborativa: uma revisão narrativa da literatura. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, São Paulo, p.94-99, 27 jan. 2016.
TEIXEIRA, Erika et al. Terapia Ocupacional da Reabilitação Física. São Paulo: Editora Roca Ltda, 2003. 571 p.
Conheça o Autor
Bruna M Surmasz, é Terapeuta Ocupacional formada pela Faculdade Guilherme Guimbala (2019), possui pós graduação em nível de Especialização em Transtorno do Espectro Autista e está em fase de conclusão em pós graduação em Desenvolvimento Infantil e Intervenção Precoce. Atualmente, atua na clínica Integração Sensorial & Espaço Integrado, uma referência na Terapia de Integração Sensorial em Joinville (SC).
Bruna é uma inspiração de engajamento e dedica-se também à defesa das causas da terapia ocupacional, sendo membra do CREFITO Jovem (CREFITO 10) e Diretora secretária na ABRATO-SC. Contato: [email protected] / (47) 999194595
Terapia Ocupacional e as práticas em saúde mental
Por Sabrina L. Pereira
Feliz Ano Novo!! Desejo que esse ano seja muito próspero, produtivo e que seus sonhos se realizem. Aliás, quais são os seus sonhos ou planos para 2021? Já notou que essa época do ano estamos mais propensos a refletir sobre a vida, sobre o que fizemos e o que pretendemos fazer? Essa é uma das razões para a criação do Janeiro Branco, um mês de campanhas de conscientização sobre a importância da atenção e do cuidado com a saúde mental. Aspectos sociais, culturais, econômicos e individuais impactam diretamente na construção da qualidade da saúde mental, de modo singular. Por isso, é essencial que o terapeuta ocupacional compreenda que a atenção e manutenção da saúde mental é transversal a todas as áreas de atuação, uma vez que o indivíduo é constituído por características físicas e mentais, e que estas influenciam e são influenciadas umas pelas outras.
Contudo, nesse mês é importante destacar as práticas terapêuticas ocupacionais em saúde mental. Ao longo do tempo a terapia ocupacional enquanto profissão da área da saúde, especialmente da saúde mental, acompanhou mudanças sociais, culturais e políticas, e por isso muitas vezes a história de uma sociedade narra a história de uma profissão. Como exemplo o tratamento moral, um dos primeiros modelo de intervenção que tinha como objetivo corrigir comportamentos considerados errados. [i] Passando pelo modelo manicomial, onde a estratégia terapêutica central era baseada na privação da liberdade e isolamento social, bem como o modelo hospitalocêntrico, ou biomédico, centrado, além do isolamento social, na medicalização (nos dois sentidos médico e medicamentoso) e intervenções invasivas como lobotomia e eletrochoque.
A Reforma Psiquiátrica iniciada na Itália por Franco Baságlia impactou, aqui no Brasil, nos movimentos dos trabalhadores, familiares e usuários de serviços de saúde mental, em busca de práticas mais humanizadas.[ii] Esse processo, árduo e longo, culminou na quebra do paradigma manicomial e a remodelação dos serviços de saúde mental[iii], hoje contemplados pelo modelo psicossocial. Este modelo tem como principais características a desinstitucionalização, a interdisciplinaridade e a valorização da subjetividade das pessoas com transtornos mentais. [iv]
Consoante ao cenário em tela, a Terapia Ocupacional acompanhou as mudanças sociais e científicas e aprimorou suas práticas desde o uso do trabalho como estratégia terapêutica[v] até a aplicação de atividades que conversam intimamente com as manifestações artísticas. Sendo que, as atividades terapêuticas são consideradas medulares à profissão, são elas que nos diferenciam dos demais profissionais, que nos identificam como terapeutas ocupacionais, que são consideradas uma ocupação com potencial terapêutico. Apesar disso, no campo da saúde mental a conversa não é bem assim, pois uma das características do modelo psicossocial, é a interdisciplinaridade, e o descolamento do poder centrado no profissional para o protagonismo da pessoa com transtorno mental. Por isso, a desconstrução da relação terapeuta-paciente, baseada no poder manifestado pelo conhecimento, é vital para a atuação do terapeuta ocupacional que se compromete ética e cientificamente com o campo da saúde mental. Entender que os saberes se complementam e que a edificação de relações cada vez mais horizontais favorecem o fortalecimento de uma prática mais efetiva e humanizada.
Destaco também que as práticas em saúde mental, sejam nos serviços substitutivos, clínicas ou consultórios, quando centradas somente nas atividades terapêuticas que se aproximam muito das atividades manuais, reduzem a lide do terapeuta ocupacional a uma lógica de tratamento, que considera a doença mais que o sujeito. De forma alguma contraponho-me ás atividades manuais, mas sugiro dilatar as possibilidades de intervenções. Portanto, julgo basilar discutir a respeito das práticas ampliadas em saúde mental, uma vez que o sujeito e seus anseios são durames a direção dos planos de intervenções do terapeuta ocupacional. O pensamento do terapeuta ocupacional contemporâneo, considera a atividade como recurso terapêutico, porém amplia a sua habilidade de prognosticar e incorpora à suas práticas os seguintes aspectos:
- a justiça ocupacional para a promoção e garantia dos direitos das pessoas com transtornos mentais;
- considera o território como espaço para a promoção da cidadania e ressignificação das relações sociais; aplica o olhar singular, ou seja estima os fatores individuais, social, familiares e comunitários de maneira única para cada sujeito;
- estimula e promove a alteridade do sujeito que torna-se protagonista do processo terapêutico;
- amplia seu conhecimento e considera atuar com diversos clusters de transtornos mentais, para além do tradicionalmente admitidos nos serviços de saúde mental.
Sublinho este último aspecto diante da atual situação vivenciada em meio a pandemia da COVID-19, que provocou impactos desmedidos na saúde pública, repercutiu no aumento das manifestações de quadros de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão bem como prejuízos na memória e distúrbios do sono.[vi] Destarte, refletir e pensar em práticas atualizadas, perante as circunstâncias, que acompanhem as demandas advindas das mudanças nos múltiplos contextos e ambientes, e como consequências nas ocupações, nos papéis e especialmente nos padrões de desempenho[vii]. Por isso destaco aqui algumas abordagens, tendências mundiais que corroboram com os pontos realçados nessa tessitura e certamente dialogam com o modelos de saúde mental estruturado aqui no Brasil.
A primeira abordagem é chamada de Whole Life (vida inteira – tradução livre), que valoriza a experiência da pessoa com transtorno mental, descentralizada da ideia de cura e sim do manejo e aprendizado para lidar com as manifestações tanto de transtornos mentais quando dos sofrimentos psíquicos. Assim, envolve domínios da vida do sujeito e considera que os diferentes contextos requerem diferentes estratégias. A ideia de território nessa abordagem é muito forte no sentido de abranger positivamente os recursos econômicos, culturais e sociais, bem como os recursos humanos.[viii] Nesse caminho outra abordagem é a Recovery (recuperação – tradução livre) que pude vivenciar na prática em serviços de saúde mental na Inglaterra – Reino Unido. Apesar da tradução da palavra recovery para o português ser recuperação, esta abordagem em nada se assemelha ao modelo biomédico baseado em parâmetros de cura ou de padrões de comportamento aceitáveis, pelo contrário, essa abordagem se desenvolve a partir das questões singulares das pessoas com transtornos mentais. Ou seja, o conceito da abordagem é facilitar a promoção da saúde e bem-estar de maneira generosa, a todos as pessoas que em algum momento da vida, passageiro ou permanente, em qualquer nível de sofrimento, leve ou severo. As perspectivas positivas são validadas nessa abordagem, que não se limita aos momentos de crise, muito menos aos aspectos sintomáticos das manifestações dos transtornos mentais e sim, nas potencialidades e desejos do indivíduo de maneira holística. Durante a experiência que tive com esta abordagem, me surpreendi positivamente com a atuação de terapeutas ocupacionais, nos mais diversos serviços de saúde mental, como espaços comunitários e hospitais de custódias, ativos e envolvidos com todos os processos de intervenções e exercendo papéis de liderança.
Para finalizar, não poderia deixar de registrar referenciais clássicos e ao mesmo tempo contemporâneos, que são primorosos para as práticas terapêuticas ocupacionais em saúde mental como o Método Terapia Ocupacional Dinâmica[ix], o método Psicoterapia Ocupacional e ainda o Modelo Kawa[x]. Estes métodos e modelos têm em comum a abordagem centrada na pessoa o que, é indispensável para toda e qualquer intervenção em saúde mental, independente do modelo de intervenção, assim como compreender que os novos modelos de serviços não garantem uma lide antimanicomial, isso requer uma quebra de paradigma pessoal em relação a história da loucura e das pessoas com transtornos mentais.
Claro, que não há modelo ou método que por si só seja eficaz, isso dependente de diversos fatores, um deles é o próprio terapeuta ocupacional, que nesse sentido deve buscar, por meio das suas práticas profissionais, combater estigmas, promover inclusão, abrir espaços de partilha e sobretudo, compreender que a saúde mental é parte de um grande contexto social. Somos resultados dos contextos e por isso não há como intervir ou entender o indivíduo de maneira retalhada, por caixinhas, pois a complexidade das experiências são singulares logo, as práticas também devem ser. Feliz Ano Novo!
Referências
[i] DE CARLO, MMR do P; BARTALOTTI CC. (Orgs)Terapia ocupacional no Brasil: fundamentos e perspectivas. Terapia ocupacional no Brasil: fundamentos e perspectivas. São Paulo, Plexus, 2001.
[ii] AMARANTE, Paulo. Saúde mental e atenção psicossocial. Rio de Janeiro, Editora Fiocruz, 2007.
[iii] BRASIL. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Diário Oficial Eletrônico, Brasília, DF, 2001.
[iv] MATSUKURA, Thelma Simões; SALLES, Mariana Moraes. Cotidiano, Atividade Humana e Ocupação: perspectivas da terapia ocupacional da saúde mental. EDUFSCAR, 2018.
[v] MÂNGIA, E.F.; NICÁCIO, M.F. Terapia Ocupacional em Saúde Mental: tendências principais e desafios contemporâneos. In: DE CARLO, M.M.R.P.; BARTALOTTI, C.C. (Orgs.). Terapia Ocupacional no Brasil: fundamentos e perspectivas. São Paulo: Plexos, 2001. p.63-80.
[vi] RAONY Í; DE FIGUEIREDO, CS; PANDOLFO, P; GIESTAL-DE-ARAUJO, E; OLIVEIRA-SILVA BOMFIM, P and SAVINO W. (2020) Psycho-Neuroendocrine-Immune Interactions in COVID-19: Potential Impacts on Mental Health. Front. Immunol. 11:1170. DOI: 10.3389/fimmu.2020.01170
[vii] AMERICAN OCCUPATIONAL THERAPY ASSOCIATION – AOTA. Estrutura da prática da terapia ocupacional: domínio & processo. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 26, p. 1-49, 2015.
[viii] JENKINS, John. Whole Person, Whole Life, Whole Systems Recovery, Discovery into Practice. International Mental Health Collaboration Network. Trieste, November 2017 .
[ix] Benetton, J; Marcolino, TQ. As atividades no método terapia ocupacional dinâmica. Cad. Ter. Ocup. UFSCar. V.21, n.3, p.645-652, 2013. DOI: http://dx.doi.org/10.4322%2Fcto.2013.067
[x] Dick, S. & McGowan, L. The river of life: The Kawa Model. OT Magazine, 21, 66-68. 2018. Disponível em https://ot-magazine.co.uk/the-river-of-life-the-kawa-model/
Conheça o Autor
Sabrina L. Pereira é terapeuta ocupacional, pós-graduada em Dependência Química e Saúde Mental e mestre em Saúde Mental e Atenção Psicossocial. Atualmente, divide sua carreira em Joinville (SC) entre o mundo empresarial na Sanville, empresa dedicada a comercialização de produtos ortopédicos e terapêuticos e o ensino, como professora na Faculdade Guilherme Guimbala. Um dos frutos de seu trabalho de supervisora de estágio foi o canal no Youtube Terapia Ocupacional Presente, desenvolvido em conjunto com os acadêmicos com intuito de divulgar os diferentes fazeres da Terapia Ocupacional. Contato [email protected]